X Festa do Café-com-Biscoito


Editorial

 

 

Na praça central de São Tiago, a terceira margem não é do rio. Mas dos sabores que correm em direção à memória coletiva de quem se reconhece a si mesmo como fundador de uma identidade exclusiva.

 

A rua alarga, um lado muito distante do outro, tudo isso para dar vazão a três séculos de história. E não é história qualquer não – trata-se da nossa História. Fluida, ela desliza pelo tempo e nos faz entender o que 12 simples barracas de madeira querem nos dizer.

 

Alguns arriscam visibilidade, outros, comércio. Disso tudo tem um pouco, é verdade. Mas que ninguém diga que não há o mais puro olhar para nosso passado. Isso não! Quando colocamos nossa roupa de domingo para passearmos pela avenida do café-com-biscoito, o que queremos é nos ver e nos reconhecer como produtores de uma cultura que não é prosaica, posto que só nossa, mas tão comum a nós que basta entrar setembro e as flores amarelas dos ipês aparecerem, para termos o sentimento de pertença à nossa comunidade.  

 

Não chegamos aqui por acaso. Não embarcamos em correnteza sem direção. Fizemos a travessia para olharmos de nossa terceira margem, como na de Guimarães Rosa, nossas tradições serem preservadas por nossos rebentos.

 

Aprendemos, desde que homens do lado de lá do Atlântico trouxeram Santo Tiago para estas paragens, que somos capazes de nos identificar por aquilo que produzimos de melhor, aquilo que nos orgulha e nos faz sentir são-tiaguenses: o sabor inconfundível de nossos biscoitos.

 

Batizados, casórios e velórios, sempre eles estão lá. Uns doces, outros salgados. Amargos não – mas bem que poderia, há momentos que pedem. Talvez seja por isso que combinem tão bem com café, forte e meio amargo. Mas isso parece coisa de mineiro… E aí já é outra prosa.

 

O que importa é que a 10ª Festa do café-com-biscoito mostra que muito mais que fazer barulho, preferimos mesmo é sentir o rio da memória que passa por entre nossos pés, levando-nos ao gostoso silêncio conteplativo de nos sentirmos um pouco Narciso quando se trata de olharmos para nossa imagem refletida em um espelho em movimento, movimento que sempre estará lá. Na nossa terceira margem do biscoito.

 

 



Escrito por Douglas Caputo às 10:27
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